Blindados da Marinha estão sendo usados pela polícia no Rio (Fonte: AFP)
Desde a primeira Guerra do Golfo, quando as imagens começaram a ser transmitidas em tempo real, podemos assistir ao vivo o espetáculo de violência e ser tocados pelo poder simbólico das imagens. Não foi diferente no 11 de Setembro, quando os aviões chocaram-se contra as Torres Gêmeas, inaugurando uma nova era de atentados terroristas divulgados ao vivo e em replay ao redor do mundo.
Agora, advindas do Rio de Janeiro, as imagens da guerra ao tráfico de drogas, que já há alguns dias vem aterrorizando a cidade. Carros de combate, que antes só víamos nos filmes, agora operam nas favelas; carros e ônibus pegando fogo; traficantes fortemente armados (e essa é a imagem mais impressionante) fogem como formigas desnorteadas.
Esse espetáculo causa as mais diversas reações naqueles que simplesmente assistem pela TV os confrontos, em algum momento do seu dia:
– Existem o bem e o mal, e devemos escolher qual é o lado certo!
– Por que os militares não jogam uma bomba e explodem os traficantes que estão fugindo?
– Parabéns ao governador e ao secretário de segurança pela coragem de enfrentar esta situação!
O certo é que ninguém aguenta mais esta situação. Se o Estado já chegou com uma série de serviços nas favelas, como água, luz e telefone, um dos ítens mais fundamentais para a cidadania, o direito de ir e vir, é negado aos moradores das comunidades. Eles precisam conviver com traficantes e milicianos fortemente armados, que têm o poder de vida e de morte sobre as pessoas. Basta!
Esta política das UPPs, de ganhar o território do tráfico, é algo que aparentemente funciona, e que causa uma real insegurança nestes grupos de criminosos que há muito dominam as áreas esquecidas da cidade. Pela primeira vez, excitados pelas imagens espetaculares desta guerra urbana, toda a população está se unindo, e a voz dos oprimidos nas favelas parece ecoar em uníssono pela sua libertação. É importante frisar o erro estratégico dos traficantes: ao espalhar o terror por toda a cidade, muito além dos seus domínios eles conseguiram que a sociedade saísse de seu imobilismo e clamasse por uma solução urgente. E assim resolveremos de uma vez o problema de inclusão social desta população. Se eles continuassem dentro de seus territórios o problema continuaria a ser jogado para baixo do tapete. É cruel, mas é a realidade.
Esta guerra que apareceu na tela do cinema com o filme Tropa de Elite, é o principal espetáculo, aquele que mais excita os espectadores pelo país. Ela aparece junto com outros espetáculos, como a transição de Dilma em Brasília, a queda dos índices de desemprego, o conflito entre as Coréias, os enfrentamentos no Oriente Médio, etc. Como escreve Guy Debord, em “A Sociedade do Espetáculo”, Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação.
Não é por acaso que o filme caminha para ser o mais visto do cinema nacional, um filme onde o herói é um assassino, assalariado do Estado, pago para mandar os vagabundos para a vala, como ele mesmo diz. Este espetáculo é o que mais vende,não é à toa.
Posso listar alguns outros elementos, não tão espetaculares, porém fundamentais para que esta situação se resolva: educação de qualidade, emprego, saúde, punição para os crimes de colarinho branco. Que os bandidos de outras classes sociais também sejam punidos. Afinal um político que desvia verbas da saúde pública é tão assassino quanto os marginais que hoje estão praticando Terrorismo Urbano. Ou o médico que recebe e não aparece no trabalho, ou ainda o professor da rede pública que deixa de dar aula por causa dos baixos salários, mas não deixa de receber, o policial corrupto, o motorista corruptor, os sonegadores de impostos. A lista é grande, mas esta ao nosso alcance realizar a mudança. Não podemos esquecer que tudo isto é fruto de anos de tolerância com a coisa errada. Com os pequenos delitos. Não podemos esquecer que o poder dos Barões do Tráfico só existe porque isto é um negócio, ilícito, mas um negócio. Onde muitos compram de poucos fornecedores. E como diz a velha Economia, quanto maior o risco, maior a rentabilidade. Então tolerância zero para todos. Tudo isso para que a gente possa sair deste faroeste e inventar o nosso próprio filme!
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