O descompasso entre o crescimento das cidades e sua capacidade de incrementar a infraestrutura fez a tecnologia assumir novo papel na gestão. Hoje, serviços urbanos mais inteligentes ganham produtividade com soluções pautadas por conectividade, integração e análise de informações. No Brasil, o Centro de Operações do Rio de Janeiro já é uma referência. A iniciativa concentra em um mesmo local 30 agências de serviços, que atuam em colaboração sobre uma plataforma tecnológica com objetivo de ganhar eficiência tanto na operação cotidiana da cidade como no planejamento e na execução de grandes eventos.
"Já reduzimos em 25% a velocidade de respostas a incidentes", registra o secretário de conservação e serviços públicos, Carlos Roberto Osório. Depois de arrumar a casa para enfrentar emergências climáticas, este ano o foco é o trânsito, com ações como instalação de GPS e câmeras em ônibus - são mais 9 mil pontos móveis com imagem -, mapeamento de gestão da frota e, até o fim do semestre, um site com imagens de todas as câmeras da cidade. "Como o cidadão bem informado ajuda a cidade a funcionar, o centro virou um enorme hub de mídia, desde as mais tradicionais até as redes sociais", diz.
"A tecnologia pode minimizar o potencial de caos das megacidades", diz Paulo Fleck, executivo de desenvolvimento de negócios da IBM Brasil, uma das parceiras da prefeitura. A chave é colher, consolidar, interpretar e compartilhar informações, além de contar com matemática pesada para processar os dados e antecipar tendências.
A estrutura carioca custou inicialmente R$ 11 milhões. Tem soluções que vão de videowall de 80 m2 implementado pela Samsung e pela Helmut Maell, telepresença da Cisco e um sofisticado sistema de previsão meteorológica, o primeiro desenvolvido pelo Centro de Pesquisas da IBM no Brasil. Também conta com 850 câmeras espalhadas pela cidade e sistema para o gerenciamento de ativos, como carros de bombeiros, leitos de hospital e armamentos policiais. Mas o diferencial é a integração de processos de diferentes órgãos. "Centros tradicionais são verticalizados, aprofundando a visão de uma determinada atividade", diz Fleck.
Estima-se que até 2020 haverá 50 bilhões de dispositivos conectados - boa parte voltada para transformar as cidades
Em Curitiba, o alvo mais recente de TI é a mobilidade. Mas a solução criada pela Urbanização de Curitiba (Urbs) pode concentrar mais serviços no futuro, como segurança e saúde. Lançado no ano passado, o Sistema Integrado de Mobilidade (SIM) é um conjunto de projetos como o monitoramento online da frota de ônibus, com tecnologia Ericsson e acompanhamento em tempo real pela Central de Controle Operacional da Urbs, pelas operadoras e pelos cidadãos. O SIM conta ainda com iniciativas como a infovia de fibra ótica implantada junto com as obras do Anel Viário Central. "O processo não termina", diz o presidente da Urbs, Marcos Valente Isfer.
Porto Alegre já vislumbra a expansão do Maximo, recém-implantada solução de gestão de ativos da IBM que custou R$ 3,5 milhões. De início, o foco são serviços terceirizados de limpeza urbana, iluminação pública e repavimentação de vias. O software permite gerenciamento de projetos, monitoramento de equipes e criação de indicadores para acompanhar e antecipar incidentes e medir a qualidade do serviço. Segundo André Imar Kulczynski, presidente da Procempa, empresa municipal de processamento de dados, até o fim do ano está prevista a ampliação do sistema para a saúde e a fazenda.
Banda larga e tecnologia máquina a máquina (M2M) são as primeiras camadas da cidade inteligente. Estima-se que até 2020 haverá 50 bilhões de dispositivos conectados no planeta - boa parte deles voltada a tornar as cidades mais eficientes. "A conectividade é a primeira camada. Depois, sensorização, telemetria e transformação de dados em informações para decisão", enumera Mário Lemos, especialista de negócios e desenvolvimento de mercados da Ericsson, que criou centros de controle operacional na Suécia e na Romênia, e outras de menor escala em Valência, na Espanha.
Para o diretor de negócios para governo da NEC no Brasil, Massato Takakuwa, a disponibilização ordenada de banda larga permite mais aplicativos e serviços e está na raiz tanto de projetos mais simples quanto mais sofisticados. Está, por exemplo, no monitoramento dos táxis em Tóquio por GPS. E também na Cidade da Copa, que a Odebrecht propôs construir ao lado do Arena Pernambuco para otimizar as obras do estádio para a Copa de 2014 - a NEC participa do planejamento inicial do empreendimento. Algo similar a Songdo, distrito vizinho a Seul, na Coreia do Sul, complexo residencial e de negócios planejado para evitar mazelas urbanas com o uso de tecnologias. São sensores no asfalto para controle do tráfego e a universalização de telepresença em residências, escolas e hospitais.
"É uma nova maneira de se viver", diz Rodrigo Uchoa, diretor de desenvolvimento de negócios da Cisco do Brasil, parceira do empreendimento.
O cenário de intensificação de uso da TI levou as empresas do setor a voltar a atenção para as cidades. Na IBM, que criou uma divisão no Brasil em 2010 com foco no assunto. A iniciativa foi batizada Smarter Cities (cidades mais inteligentes). A Ericsson elaborou o Índice de Cidades Conectadas, já em sua segunda edição. Uma das iniciativas mais recentes, e de maior peso, foi anunciada no ano passado pela Siemens, que criou uma unidade estratégica ligada à sua área de infraestrutura e cidades, composta pelos setores de indústria, saúde e energia e com cinco divisões: sistemas ferroviários; gestão de tráfego, transportes e logística; equipamentos de baixa e média tensão; redes elétricas inteligentes; e soluções para edifícios.
Com 87 mil dos cerca de 400 mil colaboradores da empresa ao redor do mundo, a iniciativa conta com um centro de desenvolvimento de soluções urbanas em Londres, que será inaugurado este ano. "Poucas empresas têm essa abrangência de atuação", diz o diretor de relacionamento com cidades, Paulo Bonada. "As soluções para as cidades são estruturais e passam por mais de um governo", observa o executivo.