terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Trunfo de ‘A Rede Social’ é o lado humano de seus personagens

A cena inicial, na qual Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) e sua namorada terminam o relacionamento em um café, remete ao famoso diálogo sobre Madonna no início de “Cães de Aluguel”. Em poucos minutos, essa cena, de diálogos rápidos e praticamente nenhuma movimentação de câmera, consegue dois feitos impressionantes: captura completamente a atenção do espectador, e define o protagonista do filme. Zuckerberg é ambicioso (seu objetivo é se distinguir no meio de um grupo de alunos que gabaritaram os testes universitários), arrogante (quando sua namorada diz que tem que estudar, ele – um aluno de Harvard – desdenha de sua universidade, a Boston University), inseguro (ele é agressivo quando ela sugere que ele procure um final club de fácil admissão), e socialmente inapto. Sua namorada o abandona dizendo que, embora ele acredite que não tem sorte com as mulheres por ser um nerd, na verdade seu azar com o sexo oposto é decorrente do fato de ele ser um cretino (na verdade, o termo usado por ela é um tanto mais chulo).
É com esse personagem incrivelmente complexo que Jesse Eisenberg finalmente tem seu grande momento na tela. Apesar de bons momentos em filmes cultuados como “A Lula e a Baleia”, e “Férias Frustradas de Verão”, Eisenberg até então estava limitado a papéis nos quais esbanjava simpatia (quase sempre interpretando o jovem intelectual, romântico e desajeitado), mas que não representavam grandes desafios. O caminho de seu Zuckerberg encontra o de vários outros personagens, entre eles, o do brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield), co-fundador do Facebook, e o de Sean Parker (Timberlake), criador do Napster. Durante todo o filme, que narra a criação e ascensão da maior rede social da história da internet (e as muitas batalhas judiciais que surgiram no processo), o roteiro de Sorkin ignora os mandamentos clássicos dos roteiristas e suas convenções sobre “arcos de personagens”. As ações de Zuckerberg enfurecem o público. Todos o odeiam. Ninguém consegue explicar porque uma pessoa seria capaz de agir de tal maneira. Mas ainda assim, todos reconhecemos o Mark Zuckerberg dentro de nós: invejoso, inseguro e perdido. E é assim que Eisenberg surge na tela. Com tiradas sarcásticas e venenosas seguidas de sutis olhares silenciosos que humanizam o personagem.
Em uma história envolvendo bilionários que apunhalam uns aos outros pelas costas, o grande trunfo de “A Rede Social” é não ter heróis ou vilões (ainda que seja perfeitamente compreensível encarar algumas das ações de Zuckerberg e Parker como típicas dos grandes vilões). Dentro do modelo estrutural freudiano, Sean seria o id, hedonista e impulsivo; Mark, o ego, racional e repleto de mecanismos de defesa; Eduardo, o superego, a figura paternal e ética; a consciência moral do mundo do Facebook. No fim, todos são grandes vítimas da ganância, da ambição e de si mesmos.
“A Rede Social” foi recebido com críticas positivas pela imprensa norte-americana, e é talvez o filme mais cotado para arrebatar estatuetas na entrega do Oscar no dia 27 de fevereiro de 2011, na qual deve ter a companhia de filmes como “The King’s Speech”, de Tom Hooper (vencedor do Festival de Toronto), “127 Horas”, de Danny Boyle, e “Um Lugar Qualquer”, de Sofia Coppola (vencedor do Leão de Ouro, em Veneza). O nome de Andrew Garfield tem ganhado força como um dos possíveis indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante, mas é difícil imaginar que Fincher e Eisenberg sejam ignorados pela Academia.
Entre as poucas críticas negativas ao filme, chama a atenção a de Jessi Hampel, repórter de tecnologia da “Fortune”, e conhecida de longa data de Zuckerberg, que critica a representação do homem por trás do Facebook na tela. Segundo ela, o Zuckerberg do filme parece alguém muito mais interessado na vida de popstar apresentada por Sean Parker, e não o jovem obcecado em criar um mecanismo que pudesse conectar todos os internautas do planeta.
O que Hampel talvez não tenha enxergado, é que as duas possibilidades não se excluem. O fascínio que Parker exerce sobre Zuckerberg não está em seu estilo de vida “bad boy”, mas sim na possibilidade de manter as rédeas sobre um negócio lucrativo, sem se curvar a ninguém (vale lembrar que Zuckerberg é alguém em busca de reconhecimento. No início do filme, ele menciona ter recebido uma proposta da Microsoft, mas afirma que preferiu disponibilizar o programa gratuitamente na internet). Mas a ambição do jovem de Harvard, de conectar todos no planeta, nada mais é que uma extensão de sua impossibilidade de se conectar no mundo real, e essa é a motivação por trás da criação do site que provavelmente está na janela minimizada do seu monitor enquanto você lê esse texto. Pois quando, na melhor cena do filme, sua advogada, interpretada por Rashida Jones, retoma os temas do início do filme, o silêncio de Zuckerberg mostra que ele é – como na letra de “Creep”, a clássica ode à autodepreciação do Radiohead que acompanha o trailer do filme – alguém que quer ser especial, mas é só um sujeito esquisito que não sabe seu lugar.



Nenhum comentário: