sexta-feira, 13 de abril de 2012

Dívida privada deve limitar crescimento na UE por anos


A dívida pública recebeu a maior parte das atenções desde que a crise de dívida europeia estourou mais de dois anos atrás. Mas pode-se dizer que a dívida do setor privado é um problema ainda mais indigesto, e os governos, em particular os da zona do euro, não parecem inclinados a adotar políticas audaciosas que aliviariam esse fardo na economia da região.
A origem do problema da dívida privada está nas hipotecas: os preços dos imóveis dispararam em vários países da Europa, e os bancos estavam dispostos a emprestar somas cada vez maiores aos compradores. O boom do mercado imobiliário desde então se esfacelou na maior parte do continente, mas os financiamentos garantidos por imóveis permanecem como uma pesada corrente pendurada no pescoço dos consumidores europeus.
Economistas já descobriram uma forte ligação entre consumo, booms de crédito e preços de imóveis em queda: os países que experimentaram um rápido crescimento nas dívidas das famílias vão sofrer uma queda mais drástica no consumo depois de um estouro da bolha imobiliária do que aqueles em que o endividamento aumentou mais devagar. Se você tomou emprestado um monte de dinheiro para comprar a sua casa (e o terreno onde ela se situa), e então os preços caíram logo depois, há uma probabilidade maior de que você vai preferir pagar a dívida a comer em restaurantes, comprar um carro novo ou reformar a casa.
Essas decisões, multiplicadas por toda a economia, estão emperrando os países europeus, como a Holanda, a Dinamarca e o Reino Unido, que passaram por booms de crédito.
"Estouros de bolhas imobiliárias precedidos por grandes aumentos nas dívidas das pessoas físicas tendem a ser mais severos e duradouros", afirmou o Fundo Monetário Internacional num relatório este ano.
As evidências desse efeito são nítidas na Europa. Na Holanda e na Dinamarca, onde os níveis de dívida tiveram um forte aumento antes da crise, o consumo doméstico caiu 3,3% e 3% respectivamente desde 2008. No Reino Unido, depois dez anos de crescimento notável da dívida das famílias, o consumo caiu 3,5%.
As famílias alemãs, que na verdade viram sua dívida diminuir em relação à sua renda disponível durante os últimos dez anos, consumiram 2,4% mais no ano passado do que em 2008.
O que a Europa pode fazer? O bloco passou incontáveis horas concebendo fórmulas para prevenir que bolhas imobiliárias e booms de crédito entrem numa espiral descontrolada. Há um novo "placar" macroeconômico com indicadores que mostram que a situação econômica de um país poderia não ser sustentável, e com penalidades para os países da zona do euro que não agirem para remediar a situação.
Mas todas essas políticas baseavam-se mais na prevenção, uma meta louvável mas também inútil para os países que estão afundados na esteira de um boom de crédito e de uma bolha imobiliária que estourou. E, infelizmente, as regras da UE tornarão muito difícil aliviar a carga de dívida das famílias acumulada durante os últimos dez anos.
As políticas fiscais geralmente podem ajudar. Elas ajudaram nos Estados Unidos, onde gastos do governo ajudaram a diminuir alavancagem no setor privado. Mas as regras fiscais da UE estão forçando todos os governos a trazer os seus déficits para baixo do limite de 3% do produto interno bruto imposto pelo bloco.
Tampouco a política monetária deve prestar algum socorro. As taxas de juros nos mundo desenvolvido já estão baixas, e na zona do euro o Banco Central Europeu não parece disposto a embarcar num programa contínuo e heterodoxo de relaxamento monetário.
"Eu receio que tenhamos escolhido, numa maneira muito masoquista, o caminho mais doloroso, onde todo mundo sangra", diz Paul De Grauwe, professor de economia da Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica.
Finalmente, um programa audacioso de perdão das dívidas pode fazer a diferença, disse o FMI no seu relatório. Durante a Grande Depressão dos anos 30 nos EUA, por exemplo, a Corporação dos Empréstimos a Donos de Imóveis comprou dos bancos cerca de um milhão de hipotecas inadimplentes e renegociou condições melhores para os devedores, ajudando a aliviar a pressão sobre o consumo das famílias atoladas em dívidas.
As autoridades europeias, entretanto, provavelmente não vão implementar um programa desse tipo, por uma série de razões. O maior obstáculo é o problema político associado a, diga-se, famílias espanholas dizendo aos seus credores alemães que não vão pagar suas dívidas.
"Também não há ninguém para forçar isso a acontecer", disse De Grauwe. "Você realmente precisa de um governo federal, e nós não temos isso no âmbito da Europa."
Sem solução política em vista, os altamente endividados consumidores europeus poderiam estar diante de um longo período em que uma lenta desalavancagem continuará reprimindo o consumo.

Nenhum comentário: