quinta-feira, 12 de abril de 2012

INADIMPLÊNCIA INIBE CORTES



 
As instituições financeiras que oferecem cartões de crédito voltados para a classe de baixa renda podem encontrar mais dificuldades para diminuir a taxa de juros do rotativo por causa do alto índice de inadimplência desse perfil de consumidor. As bandeiras regionais, como Banescard e Banorte, esperam atentas por um movimento do mercado antes de iniciar seus estudos nesse sentido.

 Segundo o consultor do Banco Central (BC), Mardilson Fernandes Queiroz, a inadimplência no rotativo dos cartões de crédito foi a maior, de 20% em 2011, em relação a outras linhas. "O rotativo é de onde boa parte dos bancos tiram a receita dos cartões. É preciso que elas cheguem a um patamar justo", afirmou Queiroz ontem, durante o evento Cards Payment & Identification, em São Paulo.

 "Se diminuirmos o juro, ofereceremos menos crédito e, se fizermos isso, reduzimos o consumo", disse o diretor de negócios da Cred System, que detém a bandeira Mais!, Paulo Monteiro Valente. Segundo ele, a inadimplência média de sua base de consumidores, a maioria das classes D e E, é de 4% a 8%. A taxa de juros do crédito rotativo está na faixa de 16%.

 Valente afirmou que a empresa já emitiu 6 milhões de cartões de crédito da bandeira Mais!, que são aceitos em 20 mil estabelecimentos de São Paulo. A empresa está há 16 anos no mercado e emite cartões private label principalmente para o varejo de calçados e confecções, supermercados e ramo de construção.

 O perfil de consumidores que utilizam os cartões da bandeira é de 30% de autônomos e de 40% com renda de até R$ 2 mil. Segundo Valente, o tíquete médio é de R$ 80 a R$ 85 e o parcelamento médio é de cinco vezes. O diretor da Cred System afirmou que o plano é expandir a atuação da bandeira no Sudeste, no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, em parceria com a Redecard e a Cielo. A meta é dobrar o número de cartões emitidos em três anos.

 Para o diretor-presidente do Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes), Bruno Pessanha Negris, que oferece o cartão de crédito com a bandeira própria Banescard, a redução do juro no rotativo será estudada pela instituição após uma reunião de bancos estaduais, que será realizada amanhã, em Brasília. Atualmente, 60% dos 900 mil correntistas do banco, de 78 municípios do Espírito Santo, utilizam o cartão na função crédito. "A maior dificuldade, na minha opinião, é a redução do spread do cheque especial e do rotativo do cartão de crédito, que ficou com pontos distorcidos. O cheque especial, por exemplo, é para ser usado em uma eventualidade. Por mais dinheiro que o banco ganhe nessa modalidade, ela não é a melhor para ele. Isso porque a instituição ganha na adimplência e não na inadimplência. Isso lembra quando começou o crédito consignado e todo mundo trabalhava no limite", afirmou.

 Na opinião de Negris, os juros do rotativo acabam servindo como uma medida educativa para que o cliente não o utilize em excesso. A taxa do rotativo do Banestes é de 9% ao mês, e era uma das menores antes das reduções anunciadas pelo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal nos últimos dias. O índice de inadimplência do banco oscila, em média de 3% a 3,5%, mas Negris ressalta que 65% dos clientes pagam as faturas em dia. O desafio agora será credenciar a bandeira a adquirentes como Cielo e Redecard, para que o cartão seja aceito em todo o Brasil.

 Para o superintendente de cartões do Banco Gerador, que opera a bandeira Banorte, Anibal Fernandes, há um movimento na indústria de cartões para a diminuição dos juros no rotativo. "Quem não souber trabalhar o cliente das classes C, D e E na entrada e na manutenção tende a perder dinheiro. Uma opção é oferecer uma taxa menor ao bom pagador ou o faturamento parcelado àquele que usa muito o rotativo", afirmou. O Banco Gerador atende 8,5 milhões de correntistas em Pernambuco e na Paraíba.

 Fernandes diz que a estratégia do banco é fazer um trabalho preventivo chamado "crédito de vizinhança", no qual funcionários do Gerador ligam para os clientes e comunicam sobre a data da fatura e ensinam como o cartão funciona, criando um vínculo. No ano passado, 58,5% dos clientes da classe D solicitaram cartões de crédito. "E 50% deles conseguiram o primeiro cartão de crédito da vida", disse Fernandes.

 Outra forma de cobrança que ele considera eficaz é o envio de motoboys, equipados com máquinas POS, para o endereço dos correntistas para fazer acordos de quitação de dívidas. A taxa de inadimplência do Gerador, superior a 90 dias, é de 2,5% e o juro no rotativo do cartão é de 12%. Na opinião de Fernandes, os custos para manter equipes próprias nessas duas frentes não são tão elevados e possíveis reduções de impostos e de compulsório pelo governo poderiam ajudar a ajustar o spread para baixo nessa modalidade de crédito. Outra forma de controlar a inadimplência, disse, é oferecer o cartão pré-pago para o cliente novo, como um teste para conhecer seus hábitos e renda. "Aos poucos avaliamos esse cliente e oferecemos um limite", afirmou.

Fonte: Diário do Comercio

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