quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

As artes dos catadores de “Lixo extraordinário”

Retrato de Tião no Cartaz do Filme

Retrato de Tião no Cartaz do Filme

Mais do que cativar os membros da Academia de Artes e Ciências de Hollywood e conquistar o Oscar de melhor documentário no dia 27 de fevereiro, “Lixo extraordinário” (“Waste Land”) pode atrair a atenção das autoridades para a comunidade que vive do que é despejado no Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. De quebra, pode fazê-las olhar com mais cuidado também para a Agrovila de Chaperó, em Seropédica, local escolhido para hospedar o novo depósito de lixo da região.
Até meados de 2010, a prefeitura de Caxias afirmava que o fechamento de Gramacho aconteceria no início deste ano, mas os planos foram adiados para 2012, até segunda ordem. Enquanto isso, os catadores de lixo reciclável vivem na incerteza, no mesmo cenário do qual Vik Muniz extraiu arte e onde o fotógrafo Marcos Prado, anos antes, encontrou Estamira, personagem-título de outro documentário, que ele dirigiu e coproduziu com José Padilha, cineasta dos dois “Tropa de elite”.
Diagnosticada como esquizofrênica e já com mais de 60 anos à época do lançamento do filme, Estamira fez questão de assistir à pré-estreia no FestRio, no Cine Odeon. A força de sua imagem e seu lúcido discurso na tela rendeu mais de 20 prêmios nacionais e internacionais entre 2004 e 2006, período em que imagens do lixão foram vistas por plateias das mais variadas nacionalidades.
Com “Lixo extraordinário”, mais uma vez o maior aterro sanitário da América Latina ganha o mundo. A coprodução anglo-brasileira — assinada, entre outros, por Fernando Meirelles e dirigida pela inglesa Julie Walker, com a colaboração dos brasileiros João Jardim e Karen Harley — já foi premiada em diversos festivais, aqui e lá fora. Contribuiu para a sua indicação ao Oscar, especialmente, a escolha do público, que o elegeu o melhor documentário apresentado em Sundance e em Berlim, onde também recebeu o Prêmio Direitos Humanos da Anistia Internacional.

Sete personagens e um fotógrafo-pintor

Diferentemente de “Estamira”, centralizado em sua magnetizante protagonista, “Lixo extraordinário” divide seu foco entre o artista plástico Vik Muniz, paulistano radicado em Nova York, e sete moradores de Gramacho retratados por ele — o dinheiro da venda dessas obras será revertido para os modelos e para o local onde eles vivem.
O filme levou quase três anos para ser concluído e, a partir dos catadores, mostra como uma pessoa pode se reinventar — ou se autorreciclar, pois, nas palavras de Vik Muniz, o documentário fala de “reciclagem humana”, além de ter sido importante para validar seu projeto: “Precisava dessa prova de que a arte tem o poder de transformação”, diz ele.
Os personagens escolhidos pelo artista são: Magna de França Santos, que se orgulha de sobreviver como catadora depois que o marido perdeu o emprego; Valter dos Santos, residente dos mais antigos, espécie de guru local e amante das rimas; Leide Laurentina da Silva, chamada de Irmã, uma craque na cozinha com os ingredientes que encontra no lixão; Isis Rodrigues Garros, a inconformada do grupo, apaixonada por moda; Suelem Pereira Dias, que, aos 18 anos, espera o terceiro filho e sustenta a família com o trabalho, iniciado aos 7; José Carlos da Silva Baía Lopes, ou Zumbi, que montou uma biblioteca comunitária com os livros resgatados do lixo; e Sebastião Carlos dos Santos, ou Tião, carismático presidente da ACAMJG (Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho).
Para olhares estrangeiros, o filme impressiona mais pelo cenário e pelas histórias de vida dos catadores de lixo do que pelo projeto de Vik Muniz — “parece mais um filme de arte do que apenas outro filme sobre a arte”, disse Peter Debruge na revista “Variety”. Já entre os críticos brasileiros, acostumados às mazelas do país, alguns acharam que o artista plástico ganhou ares de herói no documentário. Mas o que realmente importa é jogar luz sobre a situação dos mais de 15 mil Tiões, Zumbis, Suelens, Válteres, Irmãs, Isis e Magnas que vivem do lixão e do que será feito deles quando Jardim Gramacho fechar. Veja abaixo o trailer do filme e se emocione. 

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