domingo, 30 de janeiro de 2011

Importações supérfluas


Tentando retomar uma prática de fechamento comercial abandonada desde a época da ditadura no Brasil, com o objetivo de melhorar o saldo comercial e “proteger a indústria local”, o governo vai ampliar as medidas de defesa comercial. Esse foi o recado dado pelos novos secretários do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. O novo secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior disse que o objetivo é “substituir importações desnecessárias”.
“Vamos defender produtos que podem ser fabricados no Brasil de maneira adequada”, afirmou o secretário, explicando que ”as medidas de proteção serão tomadas contra produtos importados que ferem a competição legal e justa no país”.
A restrição parece boa para um observador apressado, mas pode esconder o desejo de montar determinados cartéis em setores da economia, para proteger ineficiências e falta de produtividade, e neste caso, ganham as benesses os setores mais fortes e, por isso, mais organizados. Perderá o consumidor, que tinha à sua disposição preços mais baixos para os itens de seu consumo.
Delegar ao governo a decisão do que é, ou não, ”supérfluo” é um retrocesso na livre escolha do cidadão, o que faz lembrar regimes totalitários e, até mesmo, a censura à imprensa, como foi ventilado recentemente na tentativa de introduzir nova legislação a respeito.
Para algum burocrata de plantão, por exemplo, o whisky escocês pode ser desnecessário, devendo ser abandonado, inclusive a bordo do avião presidencial, a favor da aguardente de cana de alambiques nativos; é uma opinião. Como dizia um ministro da Fazenda anterior, sobre as declarações da nova equipe “o que é bom não é novo; o que é novo não é bom”.
Na economia a distinção entre causa e efeito é frequentemente ignorada por conveniência, tentando-se remediar o problema sem tratar das razões, como parece ser a proposta da equipe econômica que assumiu.
Convenhamos, o governo anterior, seu presidente e ministro da Fazenda – este continua – puseram lenha demais na fogueira da economia – para criar uma sensação de bem estar e favorecer a eleição de sua candidata. Ora, fogo demais resulta em inflação, pois a oferta de bens, não acompanhando o impulso da demanda, força a subida dos preços. Aliás, até etimologicamente, inflação se associa a inflamar, que por sua vez vem de flama, ou seja, fogo.
Como efeito imediato – adiado convenientemente pelo governo anterior – o novo Banco Central foi obrigado a aumentar a taxa de juros, tornando o Brasil mais atraente, ainda, ao capital externo, com uma tsunami de dólares entrando e provocando a queda dramática da taxa de câmbio.
Com o real supervalorizado, as importações ficam muito baratas. Aí vem a nova equipe econômica e propõe tranca em porta arrombada, desconsiderando a relação causa e efeito do excesso de gastos públicos forçando a inflação. Não só não vai funcionar como terá diversos efeitos colaterais na economia. Um pouco de bom senso viria bem neste início de governo.

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