A consultoria do Gartner, Com base na experiência dos usuários de SaaS, elaborou uma lista de cuidados que as empresas precisam ter na hora de contratar o software como serviço, com o intuito de evitar erros comuns, como o dimensionamento equivocado de demandas e contratos mal escritos.
A pesquisa aponta quatro itens fundamentais para oferecer mais garantias aos usuários que optem pelos serviços de software, sendo eles: entender o real valor da solução, criar uma política de uso, avaliar os fornecedores e integrar com os sistemas internos da organização.
Infelizmente, a maioria das reportagens sobre o tema SaaS escondem alguns outros itens essenciais, que lembram muito as letras miúdas da bula de um remédio. E isso se espelha também nas propostas que as gigantes de TICs têm apresentado à sociedade e, em especial, ao governo. Quem sabe não tenhamos aqui algumas explicações para os obstáculos que impedem o avanço desses serviços.
Obviamente que as quatro garantias evidenciadas na pesquisa não devem ser desprezadas. Entretanto, outros princípios precisam ser acrescentados à lista de garantias e os mesmos devem ter um peso similar aos defendidos pelo Gartner Group, sendo eles:
O licenciamento do software: as soluções oferecidas como serviço não explicitam o modelo de licença do software, algo que pode dificultar a transferência do sistema completo para um outro ambiente;
A arquitetura e o modelo do sistemas e do banco de dados: o modelo de arquitetura desenhado para aplicação e para o banco de dados não tem uma documentação completa, não são publicizados ou não usam formatos abertos para sua confecção;
A privacidade dos dados: embora exista uma preocupação do próprio provedor em garantir a privacidade, as sanções também devem estar mais trasparentes. A pequena base de hoje pode ser a grande de amanhã. Sabe-se que uma base de dados com qualidade de informações tem valores econômicos estimulantes;
O caminho de migração do aplicativo: caso exista o interesse em migrar uma aplicação deve-se conhecer em que formato serão entregues os dados estuturados e não estruturados. Aqui encontra-se uma das principais barreiras técnicas de saída, como veremos adiante.
Atualmente existe um maior nível de clareza por parte dos usuários com relação ao modelo de serviços na internet e que para fortalecer a gestão do SaaS torna-se fundamental conhecer a forma de apropriação das informações e dos dados. Entretanto, as questões acima apresentadas muitas vezes não tem a mesma clareza no momento da elaboração e da execução de um contrato de serviço.
É muito importante que os futuros usuários de serviço de software considerem os quatro elementos acima, pois a dependência tecnológica do modelo de serviço poderá ser maior do que aquela dependência de uma licença de software proprietária. O alerta fica para a diferença entre a barreira de entrada e a de saída. Muitas vezes os contratos de serviços de software tem uma barreira de entrada muito baixa, mas a rota de saída é extremamente complexa.
Embora o exemplo a seguir seja negativo, ele reflete bem a realidade do cotidiano: jamais devemos esquecer o relacionamento que obtemos quando aderimos a algum contrato de operadora de celular e/ou de televisão por assinatura. Na entrada todos são cordiais, dizem que vão cumprir o estabelecido e que a saída da relação contratual é bastante simplificada. Na hora que tomamos a decisão de escolher por outro fornecedor ou de cancelarmos a assinatura, sabemos que estas promessas desmoronam rápido.
Existe um "sinal vermelho" na comparação dos serviços acima com o de software. O primeiro grupo, do celular e da Tv por assinatura, muitas vezes representam somente uma "virada de chave", ou seja, troca-se de operadora e o serviço reinícia de imediato. Já o serviço de software carrega a inteligência do nosso negócio dentro de um ambiente externo. Neste caso, é necessário pensar o que seria conviver com o mesmo nível de problema de relacionamento. Os efeitos colaterais da "virada de chave" poderiam ser um desastre para o negócio.
O Gartner Group trouxe questões importantes em sua pesquisa, mas expressa os alarmes incompletos. Na verdade descreveu as preocupações que são mais brandas para o fornecedor, que representam no mercado o lado da oferta do SaaS. Obviamente, não interessa ao fornecedor tratar mais abertamente do assunto, pois os itens aqui apresentados podem gerar uma maior fidelização(ou não seria melhor dizer dependência?) do cliente.
As questões técnicas e jurídicas(em especial as contratuais) também precisam ser consideradas ao se optar por software como serviço. Lembre-se que quando as barreiras de entrada são simples devemos nos preocupar com as de saída, pois podemos estar construindo o nosso próprio labirinto.
Cabe trazer a figura do “curral” utilizada em algumas regiões pesqueiras. Em locais onde existe uma grande oscilação da maré, o pescador constrói um curral. Uma espécie de cesto gigante com uma boca bem pequena. O peixe entra com facilidade na maré alta, mas de acordo com o tamanho do bocal e do buraco na rede, não sai mais. Ele fica ali vivo enquanto a maré está alta. Quando ela desce, não consegue mais sair e pode ser recolhido das redes com facilidade pelo pescador. Hoje esse tipo de pesca é considerada predatória no país.
Antes de migrar totalmente no mundo dos serviços de software pense no "curral": poucas barreiras de entrada, mas uma grande dificuldade para encontrar a porta de saída. Lembre-se que em algum momento a maré vai baixar.
* Corinto Meffe, diretor-substituto de Integração de Sistemas de Informação do Ministério do Planejamento. A opinião do colunista não reflete uma posição do governo ou do órgão onde trabalha.
Nenhum comentário:
Postar um comentário