domingo, 4 de março de 2012

A sociedade da incerteza



Portugueses temem agravamento da crise econômica que assola o país



Portugal não costuma ter muitos momentos de destaque nas páginas dos jornais, e a população se irrita quando vê o país ser ignorado nas previsões de tempo continentais. Infelizmente, o momento português sob os holofotes surgiu por todos os motivos errados. Lucros sobre os títulos de dez anos da dívida ficaram em 17% no início do ano, indicando que Portugal pode ser o próximo palco da crise do Euro. Cada vez que a Grécia se aproximava mais de uma moratória, os credores se preocupavam mais com Portugal e, por maiores que fossem as diferenças entre os países, nada parecia reverter esse cenário.   do tempo ser ignorada  Ainda assim, essas diferenças são gritantes. No dia 11 de fevereiro, um dia antes de 45 prédios e várias bandeiras alemãs serem queimadas em Atenas, o maior sindicato de Portugal realizou um protesto contra os cortes nos gastos públicos. Os manifestantes seguiram pelo centro de Lisboa, marchando pela Avenida da Liberdade, onde estão localizadas lojas de marcas como Gucci e Prada. Não houve qualquer incidente, e as vidraças das lojas permaneceram intactas. Enquanto isso, o governo preparava os últimos ajustes na reforma que deve flexibilizar o mercado de trabalho, seguindo exigências da Troika formada pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, em troca de proteção temporária dos perigos dos mercados de títulos.
Um governo povoado por tecnocratas, empurrando reformas impopulares por imposição de órgãos internacionais, parece o cenário ideal para o crescimento do extremismo. Mas Portugal não tem políticos prontos para se beneficiar da desilusão com a política tradicional. Suas reformas são apoiadas pelos dois principais grupos políticos, que concentram dois terços dos votos. O resto vai para uma mistura de monarquistas excêntricos, membros do Partido Verde e comunistas, e mesmo essas alternativas precisam de renovação. “Precisamos pagar a dívida, mas os prazos e as taxas de juros exigidas não são realistas”, diz Jorge Pires, um membro do Partido Comunista Português (que até hoje mantém foice e martelo amarelos em sua bandeira vermelha).
Essa coesão deverá passar por testes duros. A Troika aprovou recentemente o programa de reformas e reforço fiscal de Portugal, mas o PIB nacional deverá registrar uma queda de 3% ou mais em 2012. Essa notícia surge após cortes de 20% no setor público e reduções salariais. O desemprego, que chegou a 14% em 2011, deve aumentar ainda mais em 2011. Em tese, a economia então se recuperaria, liderada pelas exportações, e o governo retornaria ao mercado de títulos no outono de 2013. Mas é difícil encontrar um analista que acredite nisso, já que o principal mercado para as exportações portuguesas, a Espanha, tem seus próprios problemas econômicos. O Citigroup espera que o PIB seja reduzido nos próximos três anos. Logo, Portugal tem grandes chances de acabar dependendo de um segundo resgate financeiro.
“A sociedade portuguesa está passando da certeza para a incerteza”, diz o sociólogo Antonio Barreto. “O governo precisa ser cuidadoso, porque está mexendo com os pontos fracos do país”. Mas ao contrário dos gregos, os portugueses não culpam estrangeiros por seus problemas, e aceitam que são os senhores de seu próprio destino. Eles gostam de notar que, ao contrário do que acontece na Espanha, suas touradas terminam com o touro sendo derrubado por homens desarmados. Mas as batalhas que importam para o governo em Lisboa serão travadas em Atenas, Bruxelas e Berlim.
PS: O artigo pode ser lido em seu original em Inglês, publicado no link abaixo

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