quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Banco faz 'ofensiva de Natal' para renegociar dívidas



Fonte: Valor Econômico

Por Felipe Marques | De São Paulo

Na guerra contra a inadimplência, os bancos deram início a uma verdadeira ofensiva de Natal. Depois de sete meses sem sinais firmes de queda nos calotes da pessoa física, segundo dados do Banco Central, as instituições financeiras preparam-se para aproveitar o melhor período para renegociações de dívida, graças ao 13º salário, na tentativa de melhorar a qualidade de suas carteiras de crédito.
Como as concessões de crédito caminharam de forma tímida o ano todo, a renegociação ganhou uma importância maior para acelerar a melhora em índices de inadimplência, já que ataca diretamente o estoque com problemas. O Valor ouviu executivos ligados à cobrança de dívidas que relataram práticas mais flexíveis, tanto em prazos quanto em descontos, para tentar fisgar o devedor em um período que historicamente é mais propício para renegociações.
Um executivo afirma, por exemplo, que o percentual de desconto para dívidas em atraso de "faixas recentes" (até 90 dias), praticado por uma grande instituição financeira, saiu de até 20% dos juros acumulados ("mora" no jargão do mercado) para até 50% neste ano.
Outra mudança, especificamente para o crédito de veículos, é a disposição em parcelar. No passado, a maior parte dos bancos exigia que a dívida atrasada de veículos fosse quitada à vista, para não executar a retomada do veículo. Hoje já se aceita receber em até três vezes antes da retomada. Além disso, a disposição para renegociar nos créditos com garantia tem se mostrado inclusive quando a questão já está nos tribunais.
"Acho que neste ano o comércio vai perder um pouco de espaço para o pagamento de dívidas como destino do 13º", avalia Augusto Melo, diretor do HSBC responsável pela área de cobrança tanto do banco quanto da promotora de venda Losango. "Estamos otimistas com o sucesso de renegociações no fim do ano."
Embora não detalhe as condições oferecidas do banco, Melo afirma que elas têm sido melhores em especial durante os feirões "acerte suas dívidas", organizados por birôs de crédito, como Serasa Experian e Boa Vista Serviços, nos últimos meses. Para o fim do ano, há expectativa de eventos desse tipo no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, Porto Alegre, Vitória, Salvador e no Recife.
Segundo um executivo de um banco que atua em crédito ao consumo, enquanto os descontos médios no valor da dívida atrasada podem chegar a 30%, no feirão eles vão até 50%, para créditos ainda não baixados para prejuízo. Ele acrescenta também que o índice de resolução nesses eventos é superior à média, chegando a 80% dos casos.
"O fim do ano traz geralmente um aumento de 5% a 8% nas taxas de recebimentos de dívidas atrasadas. Acho que este ano o avanço deve ser de 12% a 15%", afirma Leonardo Coimbra, da empresa de recuperação de crédito Cercred, que opera com os principais bancos do país. Ele afirma que o sucesso das abordagens a tomadores tem aumentado ao longo do ano, conforme os orçamentos das famílias ficam menos apertados.
Além de ofertas mais atraentes dos bancos, o sucesso das renegociações de fim de ano também vai depender da situação dos devedores. Nesse sentido, a edição de setembro da pesquisa trimestral da Boa Vista, feita no balcão do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), trouxe sinais positivos. O levantamento mostra que, em setembro, 56% dos inadimplentes responderam que a sua situação financeira é melhor hoje do que no ano anterior. Em junho esse percentual era de 37%. Também caiu o número de inadimplentes que citam o descontrole financeiro como causa do atraso - de 30% em junho para 23% em setembro. A pesquisa ouviu 1,1 mil consumidores.
"Os esforços de renegociação foram antecipados neste ano, o que explica a melhora das condições", avalia Fernando Cosenza, diretor de inovação e sustentabilidade da Boa Vista. Para ele, a conjugação de três fatores - o baixo desemprego, o crescimento efetivo da renda real e as reduções de juros em operações de crédito - tem favorecido o ambiente de renegociações de dívidas de inadimplentes neste ano.
A questão, porém, é o pequeno impacto até agora das renegociações no índice de inadimplência do sistema financeiro, medido pelo Banco Central. Na pessoa física, de maio a setembro o índice seguiu próximo de 7,9%, o maior patamar da série histórica do BC.
"O volume de recursos que vai ser aportado no fim do ano vai ser suficiente para trazer a inadimplência para média histórica? Acredito que não", diz Jaime Enkim, da PGR Consultores Associados, que presta serviços para empresas de cobrança. Ele defende que o acúmulo de dívidas entre os inadimplentes tem limitado a atuação de quem cobra e que essa barreira persiste no fim do ano.
"O fim do ano é sempre uma época melhor em renegociação, mas não quer dizer que o mercado vá começar 2013 de forma espetacular", diz Victor Loyola, diretor de gerenciamento de risco do Citi. "O que vamos ver é a cobrança ganhando uma importancia estratégica crescente entre as instituições financeiras", afirma.

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