SÃO PAULO - Os balanços dos maiores bancos privados do país no primeiro semestre mostram que, após uma sequência de quedas em 2010, a inadimplência voltou a subir este ano e já bate na casa dos R$ 65 bilhões, um recorde histórico. Segundo especialistas, a bomba de crédito é resultado do encarecimento dos empréstimos e da alta da inflação, que come renda do assalariado. A perspectiva para esta segunda metade do ano, dizem, não é melhor. Além da desaceleração econômica interna, existe o temor de que um agravamento da crise internacional, com consequências recessivas, piore o mercado de crédito no Brasil.
Juntos, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander se depararam, no primeiro semestre, com um volume de R$ 64,9 bilhões em empréstimos com atraso superior a 14 dias, de acordo com levantamento da consultoria Austin Rating. O valor avançou 17,7% em relação a junho do ano passado, quase igualando o crescimento da carteira total de crédito no período, de 19,4%.
A dimensão desse atraso é ainda mais expressiva quando se considera que, na comparação entre 2010 e 2009 - quando a economia brasileira vivia vigoroso crescimento e o mercado parecia ter esquecido do susto com a quebra do Lehman Brothers, em 2008 -, os empréstimos atrasados registraram uma queda de 5,6%.
- Esse saldo em aberto deve ficar entre R$ 72 bilhões e R$ 75 bilhões até o fim do ano - diz Erivelto Rodrigues, presidente da Austin Rating.
A projeção do executivo considera o cenário negativo internacional, com a lenta recuperação econômica dos Estados Unidos e o aprofundamento da crise na Europa, que tende a reduzir a capacidade de captação dos bancos menores e aumentar o conservadorismo dos grandes bancos na concessão de crédito. O cenário pode piorar, segundo Rodrigues, caso a crise se aprofunde nos EUA e atinja mais fortemente Espanha e Itália. Na sexta-feira à noite, a agência de classificação de risco Standard & Poor's reduziu a nota dos EUA de "AAA" para "AA+".
- Nesse cenário, haveria deterioração profunda das carteiras dos bancos aqui, porque as empresas seriam atingidas e os bancos teriam dificuldades de captar recursos lá fora - diz Rodrigues.
Para os três maiores bancos privados, a alta da inadimplência no primeiro semestre custou R$ 17,8 bilhões - valor descontado do lucro das instituições para engrossar as provisões contra o calote. A estimativa da Austin Rating é que esse valor chegue a R$ 40 bilhões até o fim do ano.
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